Depois de vos ter contado, sobre a minha doença para vocês ficarem a conhecer um pouco a minha história, vou falar agora sobre o meu internamento no Hospital de Aveiro.
E vou-me focar mais no meu internamento com a D. Maria, porque é para vocês entenderem que existe pessoas boas neste mundo.
Como tinha referido, eu fui para o quarto mal consegui andar, já vos falei da da D. Maria, então vamos continuar a partir daí.
Digo-vos que o meu internamento não foi nada fácil, porque estar ali "sozinha" sem a minha família custou-me, porque nós estamos tão habituados a ter a nossa família por perto, que quando ficamos sozinhos num Hospital ficamos um bocado perdidos, sentimos-nos vazios, e a realidade é essa eu sentia-me lá sozinha, as visitas eram das 14h até as 20h , a minha mãe foi impecável, estava sempre lá e a mim parecia que as horas voavam, e eu ficava triste com isso porque não queria que ela fosse embora tão cedo, ou que nunca fosse essa é a verdade.
Durante o meu internamento tive alguns amigos meus a visitarem-me no qual agradeço, tive uma amiga minha que até me ofereceu um presente, uma camisola dos minions porque eu adorava os minions ahaha, não gozem :).
E agradeço também a presença da minha irmã que foi la levar-me umas prendinhas que eu gostei muito.
E a essas pessoas eu agradeço, apesar que na cara delas via assim alguma tristeza por me verem lá naquela estado assim um pouco debilitada, porque tinham que me ajudar as vezes a sair da cama porque me custava um pouco, e até andar também!
Mas posso-vos dizer que passei coisas bastantes divertidas, por causa da D. Maria a minha companheira de quarto, como vos disse ela já estava num estado crítico, mas tive o prazer de a conhecer e fico grata de a ter conhecido, porque na verdade nós as duas divertíamos-nos lá no quarto, ela fazia-me rir, falava sempre comigo.
Até vos posso dizer, quando era de noite, ela chegava a gritar o meu nome e eu tinha que levantar-me e dizer que estava mesmo ao lado dela, estava ali na cama ao lado que não ia embora tão cedo, porque tinha que lá ficar durante uma semana.
As nossas rotinas no internamento eram sempre a mesma coisa, era comer, tomar banho e andar por lá pelo hospital porque não nos permitiam que ficássemos muito tempo na cama, que é para o nosso corpo não se habituar, então a rotina era sempre a mesma.
Muitas vezes eu avisa a D. Maria que ia andar um bocadinho e que já ia ter com ela, que não me demorava muito , e ela respondia : está bem menina vai la, eu fico aqui a espera.
Então eu ia e voltava logo para lhe fazer companhia,
Ouve la uma noite, em que veio um enfermeiro tirar-me sangue porque eu estava a fazer febre e estavam a procura se existia uma bactéria, sem exagero eles espetaram-me seis vezes no braço o enfermeiro até suava, e eu virava a cara porque era doloroso, porque eu só queria descansar, passado um bocado a D. Maria estava de braço esticado, e eu comecei a olhar para ela a pensar no que é que ela estava a fazer, então o enfermeiro reparou, e disse: D Maria o que esta a fazer?
D Maria : Coitada da menina, tirem do meu braço para lhe darem.
Enfermeiro: Mas D. Maria o seu sangue não é compatível com o desta menina e nós não podemos fazer isso.
D. Maria : Mas coitada já espetaram tantas vezes nela.
Enfermeiro: Tem que ser, para podermos ver se existe alguma bactéria.
Eu fiquei comovida, com aquele gesto da senhora que eu própria lhe disse " Não se preocupe D. Maria , eu aguento, daqui a nada já esta acabar"
E passado tantas tentativas lá conseguiu o enfermeiro tirar-me sangue, estava difícil mas conseguiu.
Eu nessa noite passei muito mal, estava sempre mal disposta, doía-me sempre o estômago, estava sempre cheia de fome e eu sentia que algo não estava bem com o meu estômago.
No dia seguinte eu falei com o meu médico a explicar-lhe a minha situação do estômago e ele disse para a minha mãe comprar doces que ajudava o estômago a estar quieto, então liguei a minha mãe e ela trouxe-me doces, dos quais eu não gostei nadinha, sabiam super mal.
Então estava ali a comer os doces, e a falar com a minha mãe, depois chegou as 20h da noite e a minha mãe tinha que ir embora , e passado um bocado estava-lhe a ligar por causa das dores de estômago por não aguentava, eram dores horríveis, então desliguei a chamada e fui-me deitar.
Passado cinco minutos, levantei-me e comecei a vomitar a D. Maria carregava no botão para poder chamar uma auxiliar de saúde e a auxiliar chamava a enfermeira, mas nunca mais vinha e eu ja não aguentava vomitar mais, a D. Maria nem quis ir dormir enquanto eu não estivesse bem, e estava sempre a perguntar se já estava melhor e a dizer que daqui a nada já passava.
Passado um tempo a enfermeira veio e deu-me uma injecção que era para eu não vomitar mais, naquela noite jurei para nunca mais mesmo, foi algo horrível, um liquido verde saia e ardia imenso, depois disso tudo tranquilo já estava melhor já me podia deitar , e virei-me para a D. Maria e disse : vamos dormir?
ela : Sim vamos dormir.
passado um bocado a D. Maria levanta a cabeça olha para o armário e disse : Ana sai do armário, vai para a cama.
eu ouvi e disse : D. Maria eu estou aqui, estou mesmo ao seu lado, vamos dormir ja é tarde.
Então la que fomos dormir, eu não conseguia porque cada vez que me virava meus intestinos caiam de um lado para o outro, porque eles não estavam ainda bem colocados, no sítio certo, porque eles tinham que se habituar ao espaço na barriga.
Depois voltamos de novo a rotina, que era comer, tomar banho e andar por lá, depois era as horas das visitas, e depois as visitas tinham que se ir embora!
E agora cá vai um episódio da D. Maria, tinha ido la um enfermeiro para lhe tirar sangue, e ela sofria muito com isso, então eu fazia com que ela olhasse para mim porque assim custava menos, e ela olhava, e tentava falar comigo para não pensar no que os enfermeiros estavam a fazer.
Depois passado um bocado vejo a D. Maria a fazer gestos com a mão como se estivesse a estender a roupa, e eu virei-me e disse : D. Maria o que esta a fazer?
D.Maria : estou a entender a roupa.
Eu : D. Maria , ja é tarde, não vai secar , deixe isso para amanha.
D. Maria: Sim filha tens razão eu deixo isto para amanha,
Eu: pronto ainda bem, vamos dormir?
D. Maria : sim vamos dormir .
Fomos dormir, eu pronto era aquela situação em que não conseguia dormir bem, não conseguia descansar, porque também não comia muito porque o estômago não enchia, então estava sempre com dores e não dava para eu descansar.
E o meu internamento foi sempre assim, sozinha por um lado , mas muito bem acompanhada, nunca me vou esquecer da D. Maria,
Tinha chegado o dia de eu me ir embora, e tinha que me despedir da D. Maria, o que me custou porque estava a vê-la triste e eu prometi que a ia visitar quando estivesse melhor, a minha mão foi-me buscar, e eu vim para casa, já tinha tantas saudades de casa, dos meus gatos, dos meus irmãos e principalmente da minha cama :D .
Passado algumas semanas, tive consultar para começar a fazer a quimioterapia, então fui a consulta e disse a minha mãe para irmos ver a D. Maria, quando cheguei ao quarto, ela já não me reconhecia, já estava mesmo num estado terminal, eu tentava falar com ela e ela já não respondia como antes, por dentro fiquei super triste ver uma pessoa tão pura, tão boa, a ir-se embora aos bocadinhos.
Antes de falar da quimioterapia queria só vos dizer, que a D. Maria acabou por falecer passado uma semana, e queria vos dizer para valorizarem cada pessoa que vos aparece na vida, porque cada pessoa que entra na vossa vida ensina-vos sempre alguma coisa, seja boa ou má, para aprendermos, valorizem quem mais amam, porque um dia essa pessoa pode fugir assim num estalar de dedos, não tenham medo de amar, não tenham medo de aceitar as pessoas na vossa vida, porque é como vos digo, ensinam-nos sempre algo e nós aprendemos sempre com isso :)
Espero que tenham gostado, não entrei em pormenores porque queria realçar mais a minha convivência com a D. Maria e não realçar a minha dor, isto faz parte da minha historia, levar algo de bom depois de se ter passado algo muito mau.
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